sábado, 25 de junho de 2011

Correspondente

Meu caro desconhecido,

Confesso que encontrar-te as vezes não é um prazer, chega a ser um tanto desconfortável, porque primeiro há o grande bloqueio.
Ainda pensei que indo pra longe jamais te encontraria outra vez, mas parece que é destino. O que tu chamarias de karma.
Sem esperar uma unica palavra tua, venho te questionando de modo que eu mesmo encontre as respostas. Mas do que me adianta encontrar, se ainda não sei como usar?
Tu já conseguistes me ferir diversas vezes. Ma sempre mantive isto em segredo. Ferir é um crime, e tu deves ainda ser livre. Mas desta vez será ao meu modo.
Se não tivesse acostumado comigo mesmo, haveria o exagero. Mas em mim só há espaço para a simplicidade.
E se não for simples, não encaixa.
Já reparastes como sou contraditório em tudo que escrevo para ti?
É que não tenho mais medo do temporário, amigo. Nem utilizo mais os números para somar.
E se eu deixasse tu falar por uma vez? Este é o meu erro.
Mas é que tu não precisas das palavras. Se tem algo que nos diferencia é o teu olhar; ele te entrega. E quem tem olhos não precisa das palavras.
Não foi nosso primeiro encontro depois da última carta. Mas é que das outras vezes aconteceram de forma diferente. Sempre tinha o outro. E o outro disse: olha lá, lá do outro lado, olha o desconhecido...
Na verdade disseram; olha lá... o estranho. Mas é que eles não tinham a sensibilidade de distinguir.
Então não escrevi para ti. Pois não te achei, apenas te vi.
E te achar é meu grande prazer.

Fica Bem,

Juca Lord.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

mãos

Há muito tempo não escrevo (não só aqui, meu querido blog).
Já ouvi que escrever é como andar de bicicleta; basta passar uns dias sem andar nas palavras, e as primeiras letras vão cambaleando pela rua em busca do equilíbrio.
É por isso que começo com essa metáfora pobre e barata, até me acostumar com o ato de escrever.
Nunca evolui de forma linear entre os meus textos (logo ainda desenho - desenho porque as vezes não sei escrever, escrevo porque falo muito baixo e nem todos me ouvem), a evolução que aqui ocorre é menor.
Às vezes eu falo tão baixo, mesmo tão baixo, que só sei que estou falando porque levo minha mão ao peito e o sinto vibrar.
Nem todos tocam meu peito.
Outro dia estava sonolento quando senti ele vibrar; vai ficar bem. Bom, na verdade não foi bem isto, mas foi o que entendi. É que além de perder a voz, estou perdendo o tato.
Será a distância?

sábado, 25 de dezembro de 2010

pequenas palavras de sabão.


O problema não é ler meus pensamentos secretos, o problema é entendê-los e tentar decifrá-los – tentar decifrar talvez seja o grande erro, pois meus textos não são jogos de palavras ou quadros de um livro bobo de psicanálise, já não entrega-se nem esconde-se. Não há signos.
Estão esquecendo que antes de ser humano eu escolhi ser artista. «Aqui destacando-se o sentido do impostor, do que interpreta» De modo que venho aprendendo usar as palavras assim como se usam as tintas e os roteiros.
Quando pequeno buscava por criar alfabetos secretos, cheio de símbolos, de modo que não entendessem o que havia ali escrito. Grande erro, como alguém que busca uma nova cor «inexistente», e ela perde-se por falta de brilho, por seu caráter fosco.
Assim, deixei-me aprender a usar as tintas prontas, a usar as palavras, o alfabeto, a me entregar a um mundo feito de modo que não pertencesse à ele. E a grande complexidade da arte, que então nem eu mesmo sabia: A arte não é um refúgio, é o grito seco da garganta que quer água pela noite e tem medo de levantar no escuro. Mas, sozinho em casa, é preciso encarar o caminho até seu objetivo.
A arte não é fuga, é dar a cara pra bater.
Acontece que as vezes não existem mãos que batam, nem mesmo que façam carícias.
Quando criei aquele alfabeto secreto, eram com medo dessas mãos inertes. Nunca tentei esconder-me «Não há espaço para esconderijos nas artes», a própria criação de uma linguagem era essa vontade de me expressar «contudo, nem sempre “revelar”».
Tinha medo das erradas interpretações das minhas palavras, por isso criava um mundo metafórico.
Mas não há erros, pois meu próprio mundo é uma interpretação particular anacrônica.
Por isso, ao meu grosso e frágil modo, continuo a escrever, a criar.

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a fazer pequenas bolhas de sabão, que são tão efêmeras quanto nós mesmos. Mas nem por isso, deixa de mostrar sua beleza, sua transparência e suas cores que ressaltam quanto atingida por raios de luz.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

«explosão»



Abro a página da web.
Ainda em miniatura, vejo fichas de uma biblioteca. Ficha de empréstimo. Zoom. E em meio aqueles nomes «explosão» Meu nome. Reconheço minha letra, tão torta, datada há pouco mais de um ano atrás. Manoel Lord... 26/08/09.
Meu deus! Um ano atrás. O que é um ano?
O que passava por minha cabeça enquanto assinava, meu nome, naquela ficha de empréstimo do tal livro?!

«EXPLOSÃO»
Acordar com o sol me fazendo sair da cama, em meio a correria, pegar ônibus lotado.
Seguir em frente, acompanhando a cidade - enquanto ela deixava-me caminhar, ou quando ficava preso junto com ela em grandes congestionamentos à beira mar.
Atravessar a cidade, que para mim era tão grande. Era o mundo. A ladeira, a árvore, reconheço o ponto. parar.
E ali, naquelas ruas, que os homens ainda dividiam com os pombos, e que o sol aos poucos ia atravessando, era do Campo Grande, em direção à uma rua que parecia sem saída - e era -, da viela, que todo dia eu entrava em um casarão antigo, rosa, rosa e tão verde, de verde-grama, e tão dourado, e tão tintas, de cor, de arte, que eu me direcionava todo dia.
Estudar arte, dizia eu. Eu, e os eus, dos eus que quase tão nós, ainda que por vezes se excluindo, dirigiam-se todas as manhãs para a Avenida Araújo Pinho, pro casarão, que na frente tinha a vênus, a vênus de milo, a "tia" do acarajé, os hippies, que sobreviveram ao Wood Stock, e estavam lá, atrás de vender seus trabalhos, e tantos loucos que eram adotados por aquela casa, que outrora já foi hospício...
E ainda no meio daquela massa criativa, ainda ressuscitamos os que nunca morreram, que estão nos livros de história das artes. Estes livros, que ficam lá no fundo do casarão, em um prédio cinza-colorido, cavernas de Lascaux. E eu, encantando tanto pelas palavras e por tantas imagens, seguia o ritual de empréstimos da biblioteca. Título / Autor. Ficha. ficha. Assina aqui, e tem uma semana em tua mão. (Meu deus! Uma semana, o que é uma semana?!)
E foi de lá que eu conheci a Frida, o Egon Schiele, o meu amor, tantos amigos...
Eu, eles, eles e um bando de nós, que em meio ao perigo, resolvemos acreditar nas artes. E a arte sempre foi tão onírica."E as artes nunca deram conforto, nem dinheiro, nem nunca encheram a barriga.” Sim, mas enchiam nossas bocas. E talvez seja esta fome que a arte proporciona, que torna-nos tão fortes e sensíveis, que faz seguir em busca dos alimentos. E, como esfomeados, vamos em busca. Em busca do quê mesmo, meu deus?
E continuávamos. Nossos sonhos. Nossas artes. Nossos projetos. Nossa vida. Em meio aos vinhos, aos devaneios, aos segredos compartilhados em conversas tão artísticas, que por ora tornavam-se telas tão surreais. Era uma religião secreta, sem deuses - ou vários deles, que tinham o dom da criação, do Apocalipse. A prece de infiéis diante do mundo sobrenatural que é a arte. Magia. Era a escola de bruxos. Que iriam morrer em fogueiras. Suicídio coletivo.

Pois. Tantas mudanças, e eu agora continuo do lado de cá, buscando.
E continuamos.
Buscando o quê, meu deus?!




A ficha da biblioteca veio como uma lágrima de saudade, de um tempo tão feliz. Não, um tempo não. Um lugar. Pois ainda é este tempo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

De um lado algófilos


Ela me disse, sem me ver, que chorar não resolve nada.
Pois estava certa.
Chorar é luxo de artista. É o que move o drama, o drama e a arte.
As artes são lágrimas de grandes chorões, que vem ao mundo procurar consolos e abraços. serem entendidos, colo de mãe.
Que escorrem aos olhos, no pódio ou na cama sozinho.

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Dos olhos para fora escorre uma lágrima. Durma bem. Isto não é tristeza, não merece uma lágrima. Isto é saudade. E saudade é o grande suspense da alegria, do reencontrar-se. Do lembrar que tem alguém que pensa em ti sempre. Durma bem. E antes de deitar, reze baixinho:


Que toda tristeza que nascer em mim,
morra tranquila no silêncio da noite,
morra esmagada por meu grande sorriso onírico.
Amém.

Interstício 1250

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De grão em grão nada se move.
É necessário o preencher instantâneo,
para que não tenha o vazio,
a fome,
a solidão.

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O peso da história.

(ou Uma história quase concreta)

Há poucos dias eu contei a história do mundo que virou pedra.
Foi uma história espontânea, única, perdida num escuro insosso e parada no silêncio do sono. Quando acabei de contar quase virei uma pedra. Meu deus, porque somos tão pesados?
Minha cabeça agora é uma das pedras sem cor. Mas pedras são eternas - se isto me confortasse...
Atrevo-me futuramente escrever tal história aqui, ou parte dela que se tornou concreta, como as pedras.
E este mundo tão grande, neste eterno desenrolar de horas, será que o que eu conto não é uma, de todo o conjunto, das verdades?
Meu deus! Que minha imaginação jamais faça parte deste mundo. Que eu saiba seguir o imaginário, sem que ele me siga.
Hoje, antes de dormir, contarei para mim o desfecho da história, pois histórias precisam de finais para serem eternas.
Precisam ser pedras.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Grandes viagens.

Tem um de mim que ainda não partiu... Que continua sentando no vão de embarque, sonhando com a grande viagem.
É assim que sempre fui. Desde menino, a expectativa pelo jogar-se era sempre maior e mais longa que o próprio passeio. Para mim, a viagem começa no arrumar das malas, é quando estamos mais presentes no destino. Ainda não existe o lá-aqui, nem a saudade, apenas o grande suspense onírico do arrancar de motores.
Aprendi a viver com além-lá, o sempre-aqui. Aqui ao lado, no vão de embarque...
Sempre pronto a viajar.

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