Por lá já deve ser 4:21 da madrugada, aqui eu ainda continuo acordado –
hoje meu medo é tão concreto que vejo a vida como uma simples epiderme cobrindo
nossos traumas. Este é meu último gole antes de ir à casa, e quando se sabe a última
dose pra voltar, o álcool simplesmente é um sonífero tardio. Em mim não houve
resultado. Antes de levantar, tirei uma casca dessa camada grossa que não
inventamos palavra para descrever e tentei seguir. Ser adulto para mim é algo tão infantil que aproveito o privilégio de
ser. Agora eu tenho esta válvula: ser adulto. Beber, sair com os amigos, não
ter horário em voltar, me proteger... O ultimo gole desce quente, talvez tenha
propositalmente demorado nas doses, mas levo a punição do copo quente. E quando
este líquido quente atravessa minha garganta, fecho os olhos e nada mais sou do
que memória. Herdei de minha família materna a mania de rezar antes de dormir,
mas rezo fazendo regressões que finalizam em uma ordem cronológica no futuro;
estarei dormindo as 4:21?.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Sobre a mesa,
fatiada, encontram-se algumas
p a l a v r a s
que
talvez,
por não serem comestíveis, vão para o lixo.
Entre uma cadeira e outra, um homem magro
corta
a madeira com seu azul marítimo.
Entre os restos de comida e as frutas secas,
moscas buscam
repouso,
enquanto o homem abre sobre o marrom uma
pequena fotografia borrada entre o rosto fosco.
Com o papel manteiga,
tenta
delinear a memória em formas geométricas,
o que resulta em uma longa sequência de círculos
que terminam na borda do papel.
p a l a v r a s
que
talvez,
por não serem comestíveis, vão para o lixo.
Entre uma cadeira e outra, um homem magro
corta
a madeira com seu azul marítimo.
Entre os restos de comida e as frutas secas,
moscas buscam
repouso,
enquanto o homem abre sobre o marrom uma
pequena fotografia borrada entre o rosto fosco.
Com o papel manteiga,
tenta
delinear a memória em formas geométricas,
o que resulta em uma longa sequência de círculos
que terminam na borda do papel.
o mais doloroso de tudo
o mais doloroso de tudo não foi, decerto, dizer adeus, pois não houve, doeu foi a palavra engolida. Tenho saudade de acordar pela madrugada e imaginar meu discurso de palavras bonitas e cheia de significados até no outro dia descobrir que nada daquilo tem sentido. Daí eu me sinto um menino e busco justificativa para o que parece ser o tempo perdido. Se eu pudesse retornar no tempo, não voltaria, mas devolveria ao mundo uma parte.
o clima da região onde eu moro é insuportável, nunca há frio suficiente. Nas madrugadas que acordo, ligo ao máximo o ventilador para sentir frio, daí eu pego o mais quente dos edredons e a cama continua o mesmo calor infernal lá de antes. Tem coisas que faço, que a natureza faz antes por mim.
Mas se o terreno não tá adubado, eu não consigo plantar. Eu sigo esses planos não por comodismo, até porque exige um pouco de força das quais são complexas, mas pelo simples medo de não ser natural.
o mais doloroso de tudo não foi não ter dado certo, foi o percurso em que a água do rio seca, sem chegar no mar. que as palavras já não seguem o percurso natural.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Adim e o buraco na calçada.
Aquele coração formado pelas
pedras na calçada, hoje era apenas um grande buraco, em que nos dias de chuva
ele tentava se desviar.
É engraçado essa mania de dar
nome às formas, significado às cores, razões às coisas, amor às pessoas… Quando
Adim atravessou a rua, ainda molhada da chuva que ele nem viu cair, percebeu a
grande sem-forma que existia onde antes havia o coração. Um morango, talvez,
pensou. Mas o buraco era tão assimétrico e descontínuo que nem mesmo forma de
buraco tinha, e Adim sentia a inexplicável necessidade de dar um nome aquela
forma que hoje tava em seu caminho com a água suja da rua.
Começou por comparar com cabeças
de dinossauros, comidas exóticas, bactérias… De tudo… Mas o buraco ali já não
havia forma. Era um buraco, sem forma de buraco, que guardava resto de chuva.
Se lhe dessem mais coragem em seu nascimento, ele mesmo se ajoelharia na
calçada, e com um pouco de delicadeza e violência, começaria por retirar
algumas das outras pedras ao lado do buraco, para dar algum sentido ao vazio do
passeio.
Os primeiros pedestres olhariam
com curiosidade, outros com desdém. O que aquele homem de tão boa aparência
fazia ali ajoelhado na calçada molhada? Procurava algo que deixou cair na poça
da chuva? Então era isso que Adim fazia? O que ali havia perdido? Um casal
usando um guarda-chuva azul, do outro lado da rua, olharia com atenção para
aquela cena. O corpo inclinado, agora já ensopado pela água parada que ele
mexia, formavam um belo desenho na calçada.
Retiradas umas nove pedrinhas,
com muito trabalho, Adim percebeu o fracasso de seu esforço. As pedras da
calçada não seguiam uma lógica, e cada pedra retirada deixava ainda mais o
buraco sem forma – e cheio d’água. Adim levantou-se, agora havia apenas um
obstáculo na calçada. Contornou-o e seguiu.
Naquele dia, Adim se atrasou duas
horas pro trabalho.
síndrome de Estocolmo
Ela está apaixonada por seu assassino.
Por debaixo dos pés da mesa, ela o vê; ele tem no corpo uma calça jeans, uma camisa branca e, em uma das mãos, uma pistola. Na outra, folheia um livro de capa amarela.
Sentado em frente ao som da televisão, ele ler distraidamente. Saindo dali, caberá à ele escrever sobre sua morte – assim como o homem do telejornal anuncia agora.
Contudo, ainda restará em seu corpo metade do que foi lido...
Por debaixo dos pés da mesa, ela o vê; ele tem no corpo uma calça jeans, uma camisa branca e, em uma das mãos, uma pistola. Na outra, folheia um livro de capa amarela.
Sentado em frente ao som da televisão, ele ler distraidamente. Saindo dali, caberá à ele escrever sobre sua morte – assim como o homem do telejornal anuncia agora.
Contudo, ainda restará em seu corpo metade do que foi lido...
sábado, 21 de abril de 2012
segunda-feira, 9 de abril de 2012
acontecer
Quando estava saindo da Isla de la Toja, na Galiza, soube que há uma lenda em que se você faz um pedido ao atravessar a ponte para deixar a ilha, e se ficar sem respirar até chegar ao continente (o que de carro demora pouco menos de 60 segundos), seu desejo é realizado. Pouco fiel, mas muito encantado com a igreja e as vieiras da cidade, mentalizei e prendi minha respiração. Pedi pequeno, pois gosto de acreditar nessas lendas, no fundo, gosto que elas se tornem reais para mim. Gosto de acreditar no abstrato. Fiz um pedido que se cumprisse fácil, sem precisar do mundo. Pedi o outro lado da ponte. Pedi que o mundo rodasse. Pedi que não parasse de enxergar. Pedi 30 centavos. Pedi a comprovação da existência de Deus. Também pedi saúde, e essas coisas que gente de bom coração deseja. Pedi pequeno, fácil, porém misterioso. Começo a acreditar na ponte de la Toja, e espero até a próxima estação para meu pedido ser atendido. Não quero interferir no mundo, não posso pedir o e(x)terno.
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