segunda-feira, 14 de abril de 2014

danos


1.
agora que tenho as mãos sobre o universo escuro posso observar detalhadamente cada marca, atrás de mim milhares de estrelas.

2.
dividimos naquela noite algo perdido no mundo; depois que alcançarmos o interstício nada mais restará que seja visível. Talvez em alguns anos, milharesdanos, a lua em sangue perca-se mais uma vez sobre a luz da cidade - tudo igual, exceto nós. Tenho passado dias buscando criar fotografias. Não gosto de fotografias, gosto do perdido. Mas cresce em mim uma espécie de homem que quer tudo em caixas de vidro, iguais, talvez seja maldições de meu signo, vejo ao fundo esta constelação.

3.
quando descobri a cor do lençol, já pela manhã, custou acreditar que entregaríamos o ouro de uma só vez. Foi a primeira (única) vez que me disse eu te amo, em linguagem de sinais com as mãos (e era a primeira vez que deitava comigo).

4.
me presenteou com um livro que logo devorei. Parecia água caindo sobre as folhas, água agitada. um encontro.
Sutilmente disse que fotografia não é memória. Tudo assim está perdido, mesmo em caixas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Para entrar na água, deve olhar a lua entre as estrelas.


Tenho pra mim que se este grande mar segue os princípios da luz do sol sobre a lua, a força que os três exercem em mim, me divide em mil fases. Devo tê-los conhecido em lua nova. Ou ainda era lua cheia? Talvez. O mar tranquilamente violento batia ao canto de nossas camas molhando os seis pés.  Água mole, gente dura, aconteceu. De manhã restou apenas nós dois e ela ainda segurava minha mão. As ondas haviam levado nossas roupas, nossas vergonhas e todos os outros. O mar deixou apenas o seu movimento em nosso corpo. E quem conhece o balanço do mar, a Terra sempre parece parada.

Não adianta muito bem seguir, disse-me. Você parece estar apaixonado. Os ponteiros do relógio seguem aquela direção, mas nunca foram setas pra se orientar. E foi assim que mais uma noite veio e continuávamos dormindo.

Não poderia deixar de notar que a terra jogava sua sombra sobre a lua aquela noite. Eram trezentos e sessenta e cinco dias seu ciclo ao redor do sol. E em cada ciclo, em cada manhã, quando o sol mais uma vez nascesse, não saberíamos qual lado do sol enxergávamos. Nem há diferença – qualquer lado é uma bola imensa de luz, que ilumina, mas também cega. Então, pra onde olhar?

Disse ao marinheiro: Para entrar na água, deve olhar a lua entre as estrelas.



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

aos animais noturnos

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aos animais noturnos, que pelo som se comunicam no escuro,
deixo minha mensagem - de gemidos - em código morse.

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

quem q'eu me lembro

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que abriu seu próprio corpo, em autópsia, para procurar qualquer coisa que havia perdido.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

retificações


Eu disse não, ela insistiu. Depois de 3 horas descobri que estava errado.
 Não volto atrás.

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sábado, 8 de junho de 2013

Cortei o pedaço das águas sobre a folha e construí o orvalho onde repousaríamos. Você colocou a cabeça em meus ombros e com uma voz triste trouxe uma história que anexei em meu larousse para traduzir qualquer sentimento que ainda não houvesse nomes. Deste dia ainda tenho a foto do céu, e nela consigo ver o final do universo, ainda desfocado. Encontrei-a outro dia, dentro do livro que havia levado na ocasião caso ficássemos em silêncio e isso nos constrangesse. Desde a descoberta, comecei a entender o sentido de tua história, ou de qualquer história, antes do sentido. Nelas apenas há vida.

Quando o vento bate sobre os coqueiros ao lado de minha casa penso que é chuva. O barulho, aos meus ouvidos, é o mesmo. As folhas dançam umas com as outras como os pingos de água batem no chão. Recordo-me disto para lembrar que também sou passível aos erros. Agora eu me lembro, naquele dia, tua voz era apenas tristeza ou havia dengo? Existe em toda tristeza uma parte de carência? 

domingo, 7 de abril de 2013

fim de tarde


Chegaram em casa exaustos. Ela veio o caminho todo rindo, feliz, como sempre se manteve. Ele abriu a porta e a deixou tirar a água do mar primeiro, enquanto ele cozinhava uma sopa para o jantar. Os pés molhados só traziam para a sala um pouco da praia e da denúncia daquela tarde. Estiveram lá e tudo foi real.

Teresa saiu do banheiro com um roupão rosa enquanto secava seu cabelo com uma toalha branca. Só agora Jonas havia reparado que o sol veio se prolongar na pele dela, e aquela cor ressaltava o verde dos olhos daquela mulher que um dia ele amou. Essa era a diferença entre eles; Teresa carregava a natureza, Jonas não tinha espaço nem para o humano.

- Fiz sopa, gosta? Posso servir.

- Sim, quero provar como você se sai na cozinha. Lembra na faculdade que você sempre deixava o arroz queimar? Teresa riu, mas não pra ferir. Falar do passado não é ofensa, é saudade. Manteve o riso no rosto e os olhos no prato vazio.

- Sabe, Jonas? Estou começando a pintar. Vejo a cada dia que a pintura é superior a literatura, sabe? Sei que vai me achar ingênua, e que no futuro eu possa mudar de ideia… Também é isso, não tenho mais medo do temporário. As palavras parecem que já não são minhas, sabe? Lemos demais quando mais jovens... E cada cor, para mim, parece uma descoberta… As formas são verdadeiramente minhas.

Jonas manteve-se calado, serviu a sopa em dois pratos e sentou-se. Recriminou-a, pedante. Diminuir a literatura era a pior das ofensas. Já não tinha mais o seu meio.

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my baby shot me down


Só quando ela sentiu entre nossas cinturas que eu estava armado, percebeu que corria perigo. Confesso, quando também percebi que ela estava em defesa, não tardei muito para ir ao ataque. O primeiro tiro errôneo passou de raspão. Ela me chamou, no fim da canção, ao fundo do bar – que pela vista magnifica deveria ser todo o começo, as entradas deveriam ser mais belas. Então me disse que já eramos muito grande para brincar de faroeste  e que também eu nunca tive muito jeito pra cowboy, não discordei. Baixei minha cabeça e ela voltou pra pista, enquanto meu corpo com muito esforço tentava se esquentar para também voltar à dança. O baile chegaria ao final bem antes do sol nascer, só quando já escrevia a história o galo pôs-se a cantar.

Ela me beijou dizendo que estávamos quites, e que seu tiro foi mais certeiro.