domingo, 20 de abril de 2008
Espelhos
Morremos a cada dia, e choramos. Somos viúvos do ego de ontem.
Morremos à noite, e reencarnamos em um corpo conhecido, em um ambiente maleável.
É a saudade de algo já gasto, morto.
Não podemos viajar, nem voltar pra casa, é algo dissolvido na ampulheta. Areia passada entre as mãos.
Todo sentimento de um pai egoísta, que tenta ver no traço do rosto de seu filho, uma única semelhança.
Dos traços de um espelho, vamos tentando ressuscitar nossas vidas.
E nos cortamos com os cacos, porque cansamos do amor recíproco. E sofrer é mais divertido e inesquecível que amar.
Não lembramos quando não caímos, porque faltam cicatrizes.
Hoje fizeram um corte com o espelho. Um corte na face.
Hoje me deparei em frente há um papel riscado.
Hoje te darei uma folha em branco.
Nosso dias podem ser livros de colorir com nossas cores preferidas.
Mas acabamos borrando.
Hoje iremos chorar por nossa morte, antes de dormir.
É que imitamos os filmes, e criamos essa idéia de flashes memoriais antes de morrer.
Ao acordar, levantaremos flexíveis.
E olharemos no espelho, uma cicatriz em nosso rosto.
Boa noite, eu.
domingo, 13 de abril de 2008
Para hippies, blogueiros e afins...
Desculpa também à pessoas que escrevem poeminhas de amor em blogues, ' é que vocês também não tem uma namoradinha pra trocar cartas'.
Desculpem os erros gramaticais e a falta de criatividade.
nossomosloucosDorilú
terça-feira, 1 de abril de 2008
Ali, debruçados.
Debruçados na cama, ele com a cabeça na areia ao lado de uma fogueira quente, ela no travesseiro de sexo.
Eram diferentes, mas por isso estavam ali. Essa diferença que os excitavam e os atraiam. Ele ainda menino, com seu caderno escolar na mão, e atividades a preencher, parado na página 125. Cento e vinte e cinco.
Era engraçado, mas ele tinha um espírito de cientistas, e gostava de descobrir. Enquanto ela, ela se arrumava no espelho, como uma mulher, uma mulher feita.
Ainda continuavam ali, debruçados na cama. Sem belas melodias ou roupa da sorte tudo ia ocorrendo. Mas esse desarrumado deixava tudo perfeito. Um cheiro, um aperto e beijos, continuavam na inércia, fazendo movimentos retos e curvilíneos. Era um par de luvas esquentando mãos frias.
A música começava a ser tocada, a cada movimento. Uma orquestra. Um parque.
Porque na realidade, os opostos não se atraem, porque opostos são iguais. Gostavam de artes, das mesmas músicas, e de um milhão de coisas em comum. Mas eram tão diferentes.
Ela escutava a quilômetros, e ele, menino-homem, apenas a um quarteirão.
- Tá escutando?!
- O quê?
- O trem...
- Mas aqui passa trem é?
- Perto daqui, no final da cidade. Escuta...
Ambos, já não estavam mais ali. Já tinham pegado o trem. Em direção oposta. O desembarque de um, era o ponto de partida do outro. Mas ambos estavam juntos. O cheiro no cabelo, o suor na boca, o gosto dos olhos. Ele já havia partido, mas ela continuava a colocar sua xícara na mesa.
Ali, ainda debruçados, ele se levantava vestia sua calça, e guardava seu segredo entre calça e cueca, uma de suas manias. Levantava dali ele, homem já feito, ela, menina feliz.
É que haviam trocado, despercebidos, algumas roupas, e um se vestia do outro. Uma calça-xadrez apertada, uma blusa.
Era apenas a hora do menino voltar pra casa, e fazer sua barba. Já que havia perdido o trem, que nem ao menos poderia escutar.
Era a hora, dela, mulher-menina, voltar para o espelho e retocar seu batom, que usou em uma de suas fronhas de travesseiro.
Ambos foram fortes, mas ele foi desacompanhado ao portão.
-
- Te amo.
- Obrigado!
- Obrigado pelo quê?!
- Por me amar...
- Olhe menino... isso foi a coisa mais fria que eu já ouvi.
- Eu também, escutei em um desses filmes nacionais...
- E eu em uma dessas historinhas de conto de fada.
Piolho!
O Piolho é podre, mas é burguês... Só gosta de cabeças limpas. Piolho é podre, mas odeia gente podre, e meninos maus não tem piolho. Lembro que em 1996 tive piolhos, mas já estou grande e podre demais para ter piolhos. Mas pelo menos um, pelo menos um Piolho ainda permanece vivo em meu cérebro.
Limpa, limpa vassourinha :)
Lavagem do Bonfim. Lavagem cerebral. Lavagem semanal. Lavagem de dinheiro.
Lavagem doméstica, lavagem corporal, lavagem espiritual, lavagem de pratos, lavagem anal, Lavagem da Praça do Boxexo, lavagem de roupas, lavagem espanhola, Lavagem da Rua Nova, lavagem capilar, lavagem vaginal, lavagem dos alimentos, lavagem de automóveis. Lavagem. Lavagem.
Já viu porque a água esta acabando?!
E o mundo ainda continua sujo.
Atirei o pau no gatô-tô.
Às seis horas saia de casa, ao som de Ave Maria, e corria para o campo. Menino perverso. Subia nas árvores, e destruía o lindo coro das cigarras. Com uma linha, das costuras de sua avó, amarrava a cigarra ao meio. Essa era sua brincadeira preferida. A cigarra, assustada, andava em círculos sobre a cabeça do menino, terminava a brincadeira até ficar tonto, o menino ou a cigarra, que muitas vezes caia morta ao chão. Ás vezes, a brincadeira era interrompida por sua mãe, que mandava o menino entrar, porque o céu já não estava mais laranja.
Era Quaresma. E mesmo esse clima nostálgico e cristão, não fazia com que o menino parasse de deixá-las tontas. O mundo era um círculo, seus olhos eram uns círculos, e isso o deixava tonto. Nada de rebeldia sem causa, era malvado por natureza. Matar formigas, queimadas com borro de vela já não o satisfazia mais. A Cigarra foi seu prêmio. Péssimas cantoras, dizia ele, ainda temos que subir no alto pra apanhá-las. Você sabe como é difícil pegar uma cigarra e amarra-la? Você sabe como é difícil acompanhar todo seu movimento, em círculo, em volta de sua cabeça?! Deixa qualquer um tonto.
Amarrar cigarras, e mata-las, virou uma compulsão do menino. Quando voltava da escola, e tirava sua farda, o menino saia correndo pelo campo com uma linha na mão.
Subir. Pegar. Amarrar. Pronto! O resto do espetáculo era por conta da cigarra.
Isso se repetiu por inúmeras semanas.
Até que ele ficou tonto, e cansado de ver uma cigarra, idiota, andar em círculos
Agora ele queria um bicho muito maior, e mais difícil de machucar, um gato, um cachorro talvez. Mas homem não! Homem só basta palavrinhas para machucar, e isso era fácil demais para o menino.
Interstício 01
Nem nosso corpo é totalmente ligado a alma.
É capaz de se passar vida até na mão mais fechada.
Entre um texto e outro, existe aqui.
O interstício das letras.
Havia vida em cada entrelinha. Espera aê! Mas não era vazio?!
domingo, 30 de março de 2008
O diário de Heida
A casa da Rua 4Morava ele ali, acompanhado de seus livros e animais selvagens, era a única coisa que sabíamos do Homem da Rua 4.
O dia estava laranja, e eu mais laranja ainda, enquanto caminhava junto a Haida. Olhavam a casa, casa morta, como um pão criando mofo. Era difícil, nós imaginarmos como alguém conseguiria viver ali, trancafiado, vítima do tédio da monotonia solitária. Haida não conseguia solidão nem no choro.
Talvez o Homem havia se isolado porque alguém, aqui ,o machucou muito. Ou ele mesmo tomou uma queda enquanto tentava voar, como de praxe.
Haida e eu tratavam aquela casa como um outro mundo, criaramos o 'lá' e o 'aqui'. Ninguém jamais soubera o que existia dentro daquela casa - lá - além de um homem solitário, livros, gatos, e um $ no jardim. Eu ia contando cada detalhe da casa da Rua 4, enquanto os olhos de Haida brilhavam, como uma criança na porta de uma bomboniere a ponto de devorar todos os doces, ela queria saber daquilo tudo.
- E esse símbolo de dinheiro no jardim? Perguntava ela olhando por entre as pequenas grades que davam oxigênio aquela casa.
- Na verdade é um ‘s’, ele se chama Silvio.
- O homem da casa da rua 4 se chama Silvio? Indagava Haida, com sua mania de transformar respostas em perguntas, como uma máquina precisando de códigos de confirmação. Era mais uma chance de ter certeza do que havia escutado, já que sempre foi enganada. Assim, criou este anticorpo. Fazendo com que cada pergunta fosse re-dirigida e confirmada por um ‘sim’ ou ‘não’... sim ou não, aqui e lá...
- Sim, ele se chama Silvio.
A luz laranja do sol, dava espaço para as luzes dos postes, também alaranjadas. Aquela casa não era suja. Apenas escura, o muro evitava a luz. Muros construídos para evitar toda ilusão que o Homem, homem que agora tinha um nome, passou aqui. Agora ele sofria só, ou apenas o que nos imaginávamos, enquanto observávamos daqui. Ninguém consegue viver feliz com barreiras, e o homem havia criado as suas próprias. De repente, do último quarto da casa, foi possível ver uma luz que se locomovia junto a uma sombra.
- Olha, ele esta acordado!
Estava frase soava como ‘olha, ele esta vivo’, foi o que eu li nos olhos de Haida. Vivo no seu mundo. Mundo limitado por quatro paredes. Ficamos alguns minutos ali na porta do Homem, imaginando como seria por dentro aquela casa de telhados japonês, como seria Silvio, como seria por dentro aquele homem. estávamos soprando vida dentro de uma casa morta, estávamos ganhado novas vidas, e adquirindo os mofos da casa.
Eu estava brilhando, procurando em cada interstício uma beleza para a solidão.
E Haida, inevitavelmente, havia vestido um pouco daquela casa. Estava fechada. Havia criado sem si, seu próprio mundo, com histórias onde os personagens tinham um pseudônimo, ‘O fantástico mundo de Haida’ era um corpo de 60 kg, pálido e cheio de cólera. Ninguém jamais soubera o que se passava por dentro dela, além de um coração e um estômago para engolir suas pílulas de sonho antinômico.
