terça-feira, 1 de abril de 2008

Ali, debruçados.

Ele já era homem feito, em corpo de menino. Sentia vergonha e receio em se demonstrar inteligente na frente dela.
Debruçados na cama, ele com a cabeça na areia ao lado de uma fogueira quente, ela no travesseiro de sexo.
Eram diferentes, mas por isso estavam ali. Essa diferença que os excitavam e os atraiam. Ele ainda menino, com seu caderno escolar na mão, e atividades a preencher, parado na página 125. Cento e vinte e cinco.
Era engraçado, mas ele tinha um espírito de cientistas, e gostava de descobrir. Enquanto ela, ela se arrumava no espelho, como uma mulher, uma mulher feita.
Ainda continuavam ali, debruçados na cama. Sem belas melodias ou roupa da sorte tudo ia ocorrendo. Mas esse desarrumado deixava tudo perfeito. Um cheiro, um aperto e beijos, continuavam na inércia, fazendo movimentos retos e curvilíneos. Era um par de luvas esquentando mãos frias.
A música começava a ser tocada, a cada movimento. Uma orquestra. Um parque.
Porque na realidade, os opostos não se atraem, porque opostos são iguais. Gostavam de artes, das mesmas músicas, e de um milhão de coisas em comum. Mas eram tão diferentes.
Ela escutava a quilômetros, e ele, menino-homem, apenas a um quarteirão.
- Tá escutando?!
- O quê?
- O trem...
- Mas aqui passa trem é?
- Perto daqui, no final da cidade. Escuta...
Ambos, já não estavam mais ali. Já tinham pegado o trem. Em direção oposta. O desembarque de um, era o ponto de partida do outro. Mas ambos estavam juntos. O cheiro no cabelo, o suor na boca, o gosto dos olhos. Ele já havia partido, mas ela continuava a colocar sua xícara na mesa.
Ali, ainda debruçados, ele se levantava vestia sua calça, e guardava seu segredo entre calça e cueca, uma de suas manias. Levantava dali ele, homem já feito, ela, menina feliz.
É que haviam trocado, despercebidos, algumas roupas, e um se vestia do outro. Uma calça-xadrez apertada, uma blusa.
Era apenas a hora do menino voltar pra casa, e fazer sua barba. Já que havia perdido o trem, que nem ao menos poderia escutar.
Era a hora, dela, mulher-menina, voltar para o espelho e retocar seu batom, que usou em uma de suas fronhas de travesseiro.
Ambos foram fortes, mas ele foi desacompanhado ao portão.
-
- Te amo.
- Obrigado!
- Obrigado pelo quê?!
- Por me amar...
- Olhe menino... isso foi a coisa mais fria que eu já ouvi.
- Eu também, escutei em um desses filmes nacionais...
- E eu em uma dessas historinhas de conto de fada.

7 comentários:

robson disse...

meu deus hein!

Dom disse...

é.
até parece eu falando.
não acho que agradecer pelo amor dado seja um ato de frieza, me poupe.
é apenas educação.

Juka Lordello disse...

- Te amo.
- Obrigado!
- Obrigado pelo quê?!
- Por me amar...
- Menino! que frio! Você tá lendo o blogue de Rafa é?!


Final opcional :B

Victor Moraes, disse...

não sabia do blog aquii!
agora estou a parte.

adorei o 'conto' [ou seria ce
na de filme nacional?].
soa familiar.

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Lady disse...

Prefiro um "Obrigado!" a um "também".

Gostei bastante do texto.
^^v